Um exemplo de empreendedor moderno no bairro é o Diogo, o Tioquinho, como a mãe dele chama.
O Tioquinho é publicitário, designer, fotógrafo, essas coisas. O povo vai atrás dele quando querem abrir uma bodega, uma mercearia, uma cabeleireira. Aí ele mede o espaço entre as letras nos muros de salpico, mistura amarelo com vermelho, rosa com roxo, monta uns banners no computador, que o Tioquinho ele tem um computador.
A especialidade do rapaz é inventar nomes pros negócios. Tudo terminado em are, pra dar uma atmosfera cultural. Mercado Familiare, Salão Embelezzare, Agropecuária Plantare. Escolinha Estudiare.
Agora que anda sem serviço, o Tioquinho se atracou a fazer tatuagem na despensa da mãe, entre as conservas de pepino e as conservas de rabanete. As cebolas ela parou de fazer, que o Tioquinho tem azia, a idade não vem sozinha.
Ele já tentou ser professor de inglês online, já tentou ser influencer de cookie, já foi investidor de criptotreta, agora meio que é isso aí.
Pelo menos ele nunca entrou em trocas, diz a mãe.
Deve ser herança do pai, no fundo, esse espírito empreendedor do Diogo. Que o véio lá tinha uma fabriqueta de bateria, dessas de carro. No porão da casa, quando tinha porão. Agora fecharam, interditaram.
O homem pegava a carcaça, comprava de algum lugar, o plástico, que vinha o modelo padrão, meio pronto. Daí ficava o dia todo enchendo aquele troço de chumbo, conectando isso, estanhando aquilo. Tranquilo.
Até que um dia morreu. Interditaram o porão, o Tioquinho tem que usar a despensa, pro estúdio de tattoo.
Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul.
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