Caxias do Sul 04/04/2025

Sentimentos contraditórios vêm visitar

Cuidar das demandas do outro é importante, mas sem esquecer de cuidar também de você
Produzido por Neusa Picolli Fante, 26/02/2025 às 09:39:21
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda

Hoje vamos falar da ambivalência. Sabe aquelas interrogações dúbias, direções opostas, sentimentos e pensamentos contraditórios que vêm te visitar? Como assim? Você vai questionar?

São sentimentos e pensamentos simultâneos e ambivalentes que surgem. É como andar entre dois extremos, dois caminhos diferentes. É a confusão que se instala, ou a dúvida que se apresenta. É quando quero ir e, ao mesmo tempo, ficar. Ou então, gosto de uma companhia e também não gosto. Aprovo e, ao mesmo tempo, desaprovo.

É quando você diz “eu sou bom” e tem atitudes contrárias a isso. Vou explicar melhor: você ama alguém e o ajuda financeiramente e faz de tudo para essa pessoa ficar dependente de você, não a deixa crescer, se desenvolver. Isso mostra dois extremos, pois quem ama ajuda a dar asas para o outro voar para o seu destino que, às vezes, é longe de você. Existe aplauso por vê-lo crescer e se fortalecer.

Também pode ser: se sente alegre e se entristece com o sentimento que sente por aquela pessoa, que pode gerar raiva e vergonha. Pode ajudar financeiramente, mas ao mesmo tempo não quer nem saber de ficar ouvindo suas dores e dificuldades. Ou, então, quem sabe, ouve suas dores e quer que ela siga seus conselhos, direcionamentos. Impedindo-o de deixá-lo escolher por si.

Exemplos infinitos podem surgir. Também pode se tornar objeto, seguir no automático a cuidar de todos, menos de você. E isso te deixa ruim, pois percebe que anda no caminho do cuidado e da necessidade do outro, mas não consegue enxergar a si mesmo.

Será que não poderia dizer não em alto e sereno som para a solicitação do outro? Não seria mais justo consigo e com ele? Oh, não, não precisa agredir, mas, sim, organizar algo que precisa ser salvaguardado, antes que a situação se torne mais difícil. Antes que você se esqueça de cuidar de você; pois, lembre-se, se não cuidar de si, fica impossível cuidar do outro adequadamente. Tudo deve começar por você, e ir além...

Ali entra mais uma vez o bonzinho demais, em que o outro gosta do lugar em que é colocado e se anula. E você acha que tem o controle e, ilusoriamente, segue, até que, em determinado momento, percebe que pode não ter, nem de si, nem da vida do outro.

Sabemos que perdas e dificuldades podem levar as pessoas a ter sentimentos ambivalentes. Por isso, é importante sabermos como lidar com nossas dores e ir preenchendo o que é da perda que estamos vivendo e o que é desestrutura nossa, anterior à perda que se faz presente.

Contradições que seguem a acompanhá-lo, até você olhar um pouco mais para si, para se reequilibrar.

Viver com respeito e autonomia, principalmente, o respeito por si mesmo, leva-o cada vez mais próximo das pessoas ao seu redor. E, com certeza, ir ao encontro das suas contradições e perceber o que elas querem dizer, te deixa com um olhar ampliado.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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