Senti na pele o que o outro sentiu e me tornei muitos. Pude olhar para viveres distantes e próximos.
Viajei em outros mundos e outras realidades. Conheci além, experimentei o inimaginável. Conheci flash da dor que o outro vivia, quis me esconder, não ver, fugir, mas não podia mais, pois já tinha visto, e isso fazia toda diferença.
Vesti a dificuldade do outro. Em contato com a minha pele, elas tinham outro sentido. Outro sabor. Diria outro direcionamento, até. Isso me fazia refletir, parar e enxergar sob um novo olhar, uma nova maneira de ver e de resgatar os sentimentos do outro, junto ao meu, se fizeram presentes.
A dor do outro se fazia notar e me empurrava para sentir o que antes eu nem imaginava que existia. O que não via. O que não aprendi, que machucava, pois minha vivência foi muito diferente dessa que via, e que o outro ao meu lado integrava em si. Assim, como ele não conhecia meu modo de viver, as dificuldades que em mim existiam, eu também não reconhecia as que passavam pela vida dele.
Absorvi dores, andares difíceis, maneiras confusas de auxiliar.
Doía diferente em mim, mas a dor se fazia presente. Em alguns estares se mostrava mais pontiaguda; em outros, mais sutil, e assim seguia.
Havia lugares em mim que eram mais sensíveis, enquanto outros se mostravam fortalecidos.
Mas existia uma linha de dificuldades que pertencia a todos nós, humanos, por mais que reagíssemos diferente, algo nos pertencia e nos ligava. Nos permitia buscar aquela dor e ir além.
Sim, existem situações em que sinto o desamparo, só de olhar, e quanto mais me aproximo, mais me queima. Se traduz em um ser que, assim como o outro, tem suas dores, suas dificuldades e suas fragilidades.
Se todos nós somos assombrados por imagens difíceis, como fica quem as viveu? Pergunta que ficava em aberto, esperando acolhida, em cada brecha que pudesse abrir.
As memórias traumáticas nos invadem, nos roubam a tranquilidade, nos expõem a fragilidade.
Me questionava: como acalmar o coração sem fé e sem esperança por um novo amanhecer? Será que parar de se castigar puxando o errado para si era, naquele momento, uma possível solução?
Ficava perceptível que cada dor se encarrega de ser única e para cada indivíduo doía de um jeito singular, único, diferente, de acordo com os caminhos por onde andou, com as vivências que o conduziram, com os cuidados que obteve, com os aprendizados que trilhou. Assim são as dores do outro que até mim chegam e, principalmente, com a ação do cuidado e do discernimento sobre como auxiliar sem absorver que hoje adquiri.
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.
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