Caxias do Sul 04/04/2025

Não conseguia ir, não conseguia ficar

A segurança se conquista dia após dia, dificuldade após dificuldade
Produzido por Neusa Picolli Fante, 04/01/2025 às 08:43:02
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda

Algo morreu dentro deles. Disso, eles tinham uma leve noção. No entanto, não conseguiam olhar e não tinham forças para modificar o que nem percebiam que já existia ali...

Não se conectavam mais, ou nunca haviam se conectado. Essa era a dúvida latente. No entanto, percebiam que, em cada querer ver, caiam num vazio enorme.

Jogavam o mal resolvido, mal direcionado, o ruim de um para o outro. E lá ficavam culpando o outro pelos caminhos em que a vida os jogava. Nesse seguir da relação, cada vez se afundavam mais nas próprias interrogações.

Percebemos, nesse andar, relações doentias, que vão tomando forma na vida das pessoas. Onde está presente o “Eu gostaria que ele fosse mais, mais...”, e ele era cada vez menos... “Gostaria que ele fosse feliz ao meu lado, que me valorizasse”, entre muitos outros desejos, gostaria de depositar no outro coisas que eu posso ajudar a modificar. Cobranças intermináveis, muitas sem eco e que dependem exclusivamente do eu de cada um.

Ou “você é como seu pai”. O outro contestava “você é rígida como sua mãe”. E, assim, seguiam colocando tudo na mesa para ser olhado e, quem sabe, cuidado.

Desse modo, o cabo de guerra que se formou estava presente o tempo todo. Aumentavam a dor, as desavenças, e o sentir-se inadequado naquela relação.

O “o que estou fazendo aqui” vinha constantemente visitá-lo, e o deixava sem direção.

Não existe o “eu vou me olhar e perceber a parcela que me cabe”. No momento de insensatez, tudo era jogado de lá pra cá e, assim, ficam empacados. Não conseguiam enxergar além e se modificar. Um se menosprezava sempre, se diminuía, o outro só enxergava a si, nem via outras necessidades perto dele.

Sabemos, no entanto, que todo relacionamento, sem ou com futuro, tem dificuldades. Impossível viver uma relação saudável só com facilidades. A segurança se conquista dia após dia, dificuldade após dificuldade. Relações, conexões, não são feitas só de coisas boas.

Se davam o tempo que precisavam para refletir, para olhar de outra maneira, para voltar a interagir.

Ficava cada vez mais presente o “Aprendeu que tinha de brigar para realmente amar...”. A voz dos seus antepassados, que diziam coisas diferentes e até estranhas sobre formas de amar, ecoava dentro deles.

Nessa longa jornada, um dia ela lhe disse: “Queria que você se visse com os olhos que te vejo”. Se fosse dito a você, isso te assusta ou te inebria? Foi isso que os recolocou cada um, um pouco mais, no seu lugar.

Eles recomeçaram depois de muito tempo separados. Os não ditos tiveram espaço. E ali, no aconchego um do outro, estavam prontos para recomeçar.

Começaram a falar do trivial: do colchão que não se adequava mais, da comida que não afinavam, das festas a que se faziam presentes, dos feriados ensaiados, do filme escolhido. De tudo que agradava um e não o outro e do quanto um fechava os olhos pra agradar o outro. Mas, lá no fundo, existiam tentativas de fazer o outro feliz...

E, ali, teve um verdadeiro encontro com o outro, porém, em primeiro lugar consigo mesmo.

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

Da mesma autora, leia outro texto AQUI