Uma brincadeira legal de fazer com a literatura é pegar um tipo de texto nada a ver com o que se entende por literatura (digamos um manual de motores, uma receita de remédio) e transformar os elementos-chave, assim:
O texto literário deve ser montado de maneira que as estrias (quando houver) estejam protegidas de todo tipo de intempérie. Dessa forma não existe nenhuma possibilidade de realidade ou algum outro elemento penetrar nos parágrafos.
Outro ponto importante para a instalação de um texto literário é a condição da contraficção. Devido à qualidade de balanceamento do texto, é necessário que a contraficção esteja em boas condições e que sejam observados os valores preestabelecidos pelo acaso e a verve do autor, para que o texto funcione conforme esperado. Após a montagem, efetue uma limpeza rigorosa nas faces dos parágrafos, observando os efeitos-rebote da contraficção.
Os parágrafos de fixação dos acontecimentos e do encadeamento de ideias devem ter uma resistência mínima e porcas-torque adequadas. O torque de aperto adequado deve seguir a recomendação do gênero literário escolhido. Para aplicações especiais, onde há possibilidade de vibrações improvisadas durante a operação, deve-se consultar o próprio pulso.
Para a instalação do texto literário, deve-se observar o alinhamento das frases que indicam a posição original em que o texto foi alinhado e/ou balanceado. Caso não respeite esse alinhamento, o balanceamento pode perder o seu efeito.
E por aí vai.
Na construção desse exemplo, me baseei num manual de eixos cardan que, como todos sabem, é uma maravilha da engenharia comparável apenas à maravilha da literatura.
Não esqueça de trocar o óleo.
Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul.
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