Outro típico empreendedor de bairro é o cara, ou a mulher, que vive de aluguel. É quase como ser herdeiro, e às vezes é mesmo, a pessoa é herdeira, daí fecha todas.
Vou falar da dona, digamos, Evinha. Que querida, a dona Evinha. Entrava na minha área pra desvirar minhas roupas, que eu estendia assim, sabe, de cabeça pra baixo, de dentro pra fora, aí a dona ia lá e desvirava tudo pra mim, que senão ia morrer minha mãe, minha vó, minha tia.
Mas o melhor é que ela desvirava todas as minhas camisas de futebol, e foi por isso que o Caxias voltou pra primeira divisão do Gauchão, em 2016.
Grazie, dona Evinha, que além de cuidar da minha roupa fazia o favor de receber minha correspondência, abrindo os pacotes pra verificar se não era carta-bomba, cartão com antrax. Uma senhoria superprotetora, a dona Evinha.
Além da casa que eu alugava, tinha mais umas quantas no bairro, tudo dela. O bairro inteiro, praticamente, pertencia à dona Evinha.
A gente chegava que nem cachorro magro, os ombros pra baixo, os olhos ardidos, aquele jeito que o cara tem quando tá buscando casa. A gente chegava numa lancheria lá que era um mercadinho, uma farmácia, vendia inclusive material de construção, pneu, a gente perguntava se sabiam de algum quarto, um porão, e o cara da lancheria indicava a dona Evinha.
Meses depois, tu descobria que o cara da lancheria era genro da boa senhora.
E tinha outro genro, só que sem lancheria. Daí o serviço dele era passar cobrando os aluguéis.
Vinha de outro bairro, em dia de sol, pra não sujar a bombacha branca. Só aceitava dinheiro vivo. Se tu não tivesse, ele esperava na tua casa até tu ir no banco pegar.
– Pode deixar que eu fico cuidando – ele dizia, abrindo a tua geladeira –. Não tem água gelada?
Paulo Damin é escritor, professor e tradutor em Caxias do Sul.
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