Caxias do Sul 02/04/2025

Como proteger o outro dele mesmo

Sofrer com a outra pessoa é dar-lhe a mão, é acudi-la sem entrar no buraco junto
Produzido por Neusa Picolli Fante, 29/03/2025 às 08:46:09
Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas
Foto: Morgane Coloda

Alguém sofre e continua se afundando cada vez mais. Como agir sem invadir, sem pressionar, sem colar nele a nossa verdade? Simplesmente, ajudá-lo a se reorganizar, para que ele consiga se reerguer. Dar a mão para ele, sem deixá-lo dependente do que falo e sem direção. Sem invalidar suas escolhas e sem negligenciar seu direito ao autodirecionamento.

Quando alguém nos dá a mão em um momento difícil, nos acolhe, nos dá pertencimento, mostra que não estamos sozinhos. Isso faz com que nossa autoconfiança, seja conosco mesmos ou em como nos dirigimos pela vida, se fortifique.

Vemos pessoas ocupando posições distintas, sendo submissas ou sendo comandantes. Elas vivem conosco, ao nosso lado andam. É ali que observamos dois extremos: ou tudo sabem (pensam que sabem) ou nada construíram (carregam essa ideia em si) e não conseguem se proteger, ou mesmo se direcionar...

Construir o equilíbrio entre “tudo sei” e “nada sei” é imperativo. Uma vez que cada um tem uma opinião, e como vivemos em comunidade, é prioritário existir essa troca. Isto é, chegar num consenso que significa eu fornecer algumas coisas e acatar outras.

Sabemos, no entanto, que, com autonomia e respeito, devemos nos construir; mas, para isso, necessitamos descobrir o caminho individual para cada um. Isto é, não atropelar o outro com o que eu escolho para ele seguir... O proteger o outro dele mesmo e ajudá-lo sem invadir se mistura em nosso íntimo, procurando uma direção, pois nem eu, nem o outro, muitas vezes, sabemos como agir.

No entanto, a coerência é alcançada devagar e, para isso, é preciso ir pelas beiradas, pois a compreensão dele não alcança como você construiu as suas verdades, que são baseadas nas experiências que você carrega no seu íntimo. Sofrer com o outro é dar-lhe a mão, é acudi-lo sem entrar no buraco junto. Invadi-lo é tirar o direito dele de ter e viver a sua dor do seu jeito. Dores e interpretações referentes a tudo que viveu, a tudo que conseguiu absorver e ao que não conseguiu também invadem seus dias.

Não vai ajudá-lo a crescer, impondo como enxergo a vida e os acontecimentos desta, pois não é a minha vida, não são as minhas experiências que devem se sobrepor. O que mais preciso ter claro é que, em primeiro lugar, o que me cabe é respeitar o espaço e o ritmo do outro, afinal, o olhar dele só a ele pertence... São resgates dele com ele mesmo!

Nessa construção, a mim cabe também me fazer respeitar, mas esse é um assunto para outra crônica...

Neusa Picolli Fante é psicóloga clínica especialista em lutos e perdas. É palestrante e escritora, autora de oito livros: três de psicologia, três de crônicas e dois de poesia.

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